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SOCIEDADE PRÓ-ARTE MODERNA
André Luiz Faria Couto

Graduação em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Mestrado em História pela UFF. Autor de verbetes para a 2ª ed. do Dicionário Histórico-Biográfico (Cpdoc-FGV) e co-editor do DVD Enciclopédias das Artes (Sabin-Rumo Certo).


Camargo Guarnieri

Entidade criada por artistas e intelectuais na cidade de São Paulo, em 23 de novembro de 1932, com o objetivo de promover e difundir os princípios estéticos modernistas. O ato inaugural da SPAM se deu em reunião realizada na casa do arquiteto Gregori Warchavchik, em que foi eleita uma comissão diretora provisória composta pelos pintores Paulo Rossi Osir e Tarsila do Amaral e pelo crítico de arte Paulo Mendes de Almeida. Nova reunião, realizada em 22 de dezembro seguinte, na casa da bailarina Chinita Ullman, ampliou para 39 o número de sócios fundadores da sociedade, recrutados entre pessoas ligadas a diversas áreas da expressão artística, como os pintores Anita Malfatti, Antônio Gomide, Hugo Adami, John Graz e Victorio Gobbis; o escultor Victor Brecheret; o compositor Camargo Guarnieri; e os escritores Guilherme de Almeida, Mário de Andrade, Menotti Del Picchia, Paulo Prado e Sérgio Milliet. Mas o grande animador da SPAM foi, sem dúvida, o pintor lituano Lasar Segall, que havia muito circulava nos meios artísticos modernistas da capital paulista. Segundo Paulo Mendes de Almeida, Segall foi a alma do movimento, que sem ele nem teria existido.


Gregori Warchavchick

Ainda em dezembro de 1932, foram aprovados os estatutos da entidade e eleita a sua primeira diretoria efetiva, em reunião realizada na residência de dona Olívia Guedes Penteado, figura que desde a década anterior vinha desempenhando importante papel de ligação entre os artistas modernistas e os setores mais abastados da sociedade paulista. Da diretoria então eleita faziam parte os três integrantes da comissão provisória, a anfitriã da reunião e mais Mina Klabin Warchavchik, Chinita Ullman, Lasar Segall, Carlos Pinto Alves e Jayme da Silva Telles. Além de seus sócios fundadores, a SPAM contaria ainda com cerca de 85 associados, entre os quais alguns elementos pertencentes às famílias mais ricas do estado. Note-se que a fundação da Sociedade ocorreu um mês após a derrota do Movimento Constitucionalista de 1932, que tentara, sob a liderança de amplas parcelas da elite política e econômica de São Paulo, depor o presidente Getúlio Vargas e promover o retorno do país ao regime político constitucional. A derrota no campo político e militar acabaria por estimular uma série de iniciativas de afirmação da elite paulista no campo intelectual, das quais o fruto mais expressivo foi a fundação da Universidade de São Paulo (USP), em 1933.


Guilherme de Almeida

Além de promover exposições de artes plásticas, concertos musicais e reuniões literárias, a SPAM apresentava um caráter marcadamente mundano, evidenciado no perfil festivo de grande parte de seus eventos. Poucos dias após sua criação, por exemplo, a entidade promoveu uma festa de réveillon denominada São Silvestre em farrapos, decorada com paineis de Segall. Em fevereiro do ano seguinte, com a finalidade de arrecadar fundos para a entidade, promoveu-se o Carnaval na Cidade de Spam, baile realizado nos salões do Palacete Trocadero, cedido pelo associado Samuel Ribeiro. Também idealizado e dirigido por Lasar Segall, o baile transformou-se, segundo Teixeira Leite, numa “extraordinária manifestação de arte coletiva, como possivelmente nunca se fizera e nem se tornaria a fazer no Brasil”. O salão da festa foi transformado cenograficamente numa cidade de interior, com ruas, praças, monumentos, edifícios públicos, circo, jardim zoológico, bares e restaurantes, por onde circulavam os foliões, caracterizados como personagens daquela cidade imaginária. Além de Segall, a elaboração da rica cenografia do baile contou com a participação também de Vittorio Gobbis, Hugo Adami e Anita Malfatti, entre outros. O figurino dos participantes ficou a cargo de Esther Bessel, Jenny Segall e John Graz. Uma apresentação cênica coreografada por Chinita Ullman abriu o evento, cuja direção musical ficou sob a responsabilidade do compositor Camargo Guarnieri que, inclusive, compôs um hino para a festa (Hino Spantriótico). Durante o baile, circulou pela “cidade” um jornal elaborado por Mario de Andrade, Alcântara Machado e Sérgio Milliet.

Em abril de 1933, ainda sem contar com uma sede própria, inaugurou-se a I Exposição de Arte Moderna da SPAM, na rua Barão de Itapetininga. A mostra teve grande significado artístico, já que nela foram expostos, além das obras de artistas associados, trabalhos de grandes nomes da arte mundial - Brancusi, De Chirico, Delaunay, Foujita, Gris, Léger, Lipchitz, Lothe, Picasso e Le Coubusier, entre outros - pertencentes às coleções particulares de Olívia Guedes Penteado, Paulo Prado, Mário de Andrade, Tarsila do Amaral e Samuel Ribeiro. O evento recebeu um público significativo e contou com catálogo de apresentação com reproduções dos trabalhos expostos e prefácio de Mario de Andrade.


Mário de Andrade

Em 16 de agosto daquele ano, a SPAM inaugurou sua sede própria no Palacete Campinas, na Praça da República, centro da cidade. O estabelecimento contava com ateliê, salão de exposições, sala para conferências, concertos e espetáculos teatrais, além de biblioteca e bar. Ainda no final de 1933, foi realizada na nova sede a II Exposição de Arte Moderna da SPAM, que contou com a participação de importantes artistas então radicados no Rio de Janeiro, entre os quais Di Cavalcanti, Guignard, Cândido Portinari e Orlando Teruz.

No início de 1934, a Sociedade realizou novo baile carnavalesco, dessa vez num antigo ringue de patinação localizado da rua Martinho Prado. Batizado de Expedição às Matas Virgens da Spamolândia, o evento envolveu novamente diversas manifestações artísticas e, como o primeiro, foi projetado por Lasar Segall. A cenografia e os figurinos foram produzidos por Anita Malfatti, Armando Balloni, Arnaldo Barbosa, Gastão Worms, Paulo Rossi Osir, Anita Burmah, Esther Bessel, Gaudio Viotti, Jayme da Silva Telles, Jenny Segall, Marxito Hasson, Paulo Mendes de Almeida, Waldemar Gerschow e Nelson Barbosa. Música de Camargo Guarnieri e Ernst Mehlich, bem como um bailado de Chinita Ullman e Kitty Bodenheim foram produzidos especialmente para o evento. Segundo Daisy Alvarado e Vanessa Machado, “o rinque foi convertido numa selva incrível, de atmosfera surrealista, comportando animais antropomórficos, bicéfalos, agigantados, bi ou tridimensionais. Tudo meticulosamente decorado, com o predomínio dos ocres- terra, amarelo e laranja. O imaginário tribal e indígena do passado brasileiro é revestido por uma visível inspiração na arte primitiva africana. Com efeito, o expressionismo do traço acabou por pouco dialogar com a memória nacional, mas teve a importância resguardada pela força de sua materialidade plástica e pelo discurso antropofágico – os indígenas ‘spamolandezes’ eram canibais.” Nos dias seguintes ao evento, diversas manifestações publicadas na imprensa paulistana protestavam contra os excessos cometidos no baile.


Tarsila do Amaral, EFCB

As desavenças entre os diretores da Sociedade, que resultaram no afastamento de Lasar Segall de sua Comissão Executiva desde novembro de 1933, bem como as dificuldades financeiras da entidade, agravadas com morte de dona Olívia Guedes Penteado, em junho de 1934, comprometeram a continuidade da SPAM, que foi extinta por decisão tomada em assembléia geral de seus associados, no segundo semestre daquele ano.

A criação da Sociedade Pró-Arte Moderna deve ser entendida como parte de um contexto marcado pelo surgimento de diversos outros grupos e entidades associativas que procuravam ampliar os espaços para a arte moderna em São Paulo, como são os casos do Clube dos Artistas Modernos (1932), do Grupo Santa Helena (1934) e da Família Artística Paulista (1937). Fenômeno semelhante, por sinal, ocorria também no Rio de Janeiro, onde foram criados, por essa mesma época, o Núcleo Bernardelli (1931) e o Clube de Arte Moderna (1935). Apesar de todos esses agrupamentos absorverem as propostas estéticas modernistas, faziam-no de forma diferenciada. Enquanto alguns, como é o caso da SPAM, filiavam-se mais diretamente ao espírito da Semana de 22, demonstrando maior disposição para a experimentação estética; outros, diferentemente, reagiam contra o vanguardismo dos modernistas mais radicais, a quem censuravam a disposição de rejeitar, sob o rótulo genérico de passadista, as tradições e saberes acumulados ao longo da história da arte.

Apesar de seu curto período de vida, a Sociedade Pró-Arte Moderna foi, na opinião de um grande número de artistas e críticos, de enorme importância para a conquista e consolidação de espaços para a arte moderna nos círculos mais intelectualizados da elite paulistana. Paulo Mendes de Almeida, que participou pessoalmente de suas atividades e nos oferece detalhes sobre o nascimento e a trajetória da entidade em sua obra De Anita ao Museu, considerou-a “um teste de resultados positivos sobre as possibilidades do ambiente artístico da cidade, sendo assim uma precursora do Museu de Arte Moderna de São Paulo”.

Fontes
- ALMEIRA, Paulo Mendes de. De Anita ao Museu. São Paulo: Perspectiva, 1976. (pp. 41-73)
- ALVARADO, Daisy Peccinini; MACHADO, Vanessa. SPAM: Sociedade Pró-Arte Moderna. Museu de Arte Contemporânea. Arte no século XX / XXI: visitando o MAC na web.
<http://www.mac.usp.br/mac/templates/projetos/seculoxx/modulo2/modernidade/eixo/spam
/index.html>
- LEITE, José Roberto Teixeira. Dicionário Crítico da Pintura no Brasil. Rio de Janeiro: Artlivre, 1988. (Verbete: Sociedade Pró-Arte Moderna, pp.484-485).
- Itaú Cultural. Verbete: Sociedade Pró-Arte Moderna.
<http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_ic/index.cfm?fuseaction=
marcos_texto&cd_verbete=3772&lst_palavras=&cd_idioma=28555&cd_item=10>

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