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ROMANTISMO NA PINTURA BRASILEIRA
Raul Mendes Silva


Pedra da Mãe d'Água, Felix Taunay, C. 1850, MASP

O romantismo teve sua gestação na Europa e caracterizou-se, parcialmente, como uma reação ao classicismo e suas derivações, sendo que estas influências, entretanto, continuariam deixando seus traços em nossas artes, antes e depois do romantismo. Embora algumas obras de arte europeia já revelassem características românticas nos finais do século 18, só no início do século seguinte o movimento se estruturou e popularizou.

O romantismo elegeu a emoção, a individualidade, a alma, os sentimentos e as manifestações exageradas de afeição como forma de expressão artística. Relegou para segundo plano os padrões rígidos coletivos, o equilíbrio e a razão. O artista deveria seguir sua intuição e fugir dos "grilhões" acadêmicos, clássicos e neoclássicos que então dominavam a produção estética. Como opções artísticas, os românticos admiravam a natureza selvagem, com suas trovoadas e aguaceiros, o nascer e o pôr-do-sol, os seres humanos simples do interior, a religião cristã como companhia ideal do ser humano, as viagens ligadas a conteúdos sentimentais, a Idade Média, com seus cavaleiros, castelos e castas senhoras.


O voto de Heloísa, Pedro Américo,
1880, MNBA

O último tamoio, Rodolfo Amoedo, MNBA

Já veremos de que modo esta visão do mundo se projetaria no Brasil, onde haveria talvez, as damas puras, mas não os castelos. Da mesma forma que acontecera com o barroco e o neoclassicismo, também o romantismo chegou tardiamente ao país, a partir de cerca de 1830 e perdurando até 1880, quando seria substituído definitivamente pelo realismo.


Naufrágio do Sírio, Benedito Calixto, 1907, M. A. Sacra, São Paulo

Entre 1831- 40, no período da Regência, os brasileiros encontraram-se quase subitamente entregues ao seu próprio destino, atores políticos sozinhos e únicos, tendo que ser governantes e governados, e ainda por cima envolvidos em questões internas, que colocavam, de um lado, os monarquistas do Partido Conservador e, do outro, o Partido Liberal, que ambicionava para o destino da Nação uma federação republicana. Teve então o país a sorte de contar com homens públicos de grande competência, que logo trataram prudentemente de elevar ao poder o Imperador D. Pedro II, com apenas quinze anos de idade, assim evitando as lutas internas, que poderiam ter esfacelado o país.


Moema, Vitor Meireles, 1866, MASP

O romantismo brasileiro não endeusou os castelos medievais, nem as lendas dos cavaleiros e das senhoras que ficavam esperando, por anos a fio, que eles voltassem das guerras. Mas a transposição dessa mitologia para as artes nacionais foi engenhosa e entusiástica, melhor diríamos, patriótica, ufanista e nacionalista, conforme resumiu posteriormente Joaquim Manuel de Macedo (Noções de Corografia do Brasil, Rio de Janeiro, 1873 - escritor mais conhecido por ser o autor da encantadora novela A Moreninha).


Joana d'Arc, Pedro Américo, 1884, MNBA

Floresta brasileira, M. A. Porto-Alegre, 1853

Os românticos nacionais cultivavam alguns temas preferidos:

A NATUREZA
   "A natureza brasileira é opulenta e sublime ...sua vastidão territorial não tem similar em nenhum continente...todas as esquadras do mundo (caberiam) nos ancoradouros da baía do Rio de Janeiro...(aqui) os rios e o mar livremente se comunicam...a bacia do Amazonas não tem rival no mundo, nem em majestade pela vastidão e profundidade, nem em beleza por seus variados primores...(a nossa natureza)...é pródiga e nos doa à farta resinas preciosas, madeiras de construção, cacau, castanha, salsaparrilha, cravo, carnaúba e muitas outras coisas." Neste caso, a omissão dos principais produtos agrícolas de exportação queria provar que o Brasil não era só açúcar e café, e que poderia rapidamente transformar-se em potência industrial, para isso precisando de emigrantes europeus qualificados.


Francesca da Rimini, Figueiredo e
Melo, MNBA

Rabequista árabe, Pedro Américo,
1884, MNBA

A RELIGIOSIDADE
   A Religião Católica Apostólica Romana é a religião do Império: porém, todas as outras religiões são permitidas, com seu culto doméstico ou particular... (contudo) sem forma alguma exterior do templo. A Maçonaria, a quem pertenciam numerosas personagens da elite, e as religiões afro-brasileiras, são cuidadosamente esquecidas.


Independencia ou Morte, Pedro Américo, M. Paulista, 1888

O POVO BRASILEIRO
   Os costumes patriarcais continuam a marcar o espírito, o sentimento, a prática e a benevolência da hospitalidade (esta permanece especialmente intocada no interior do país); generosa grandeza do caráter, enfim, trata-se daquele homem "cordial" sobre o qual teorizou o historiador Sérgio Buarque de Hollanda um século depois. "...A senhora brasileira é mais religiosa, mais benéfica, abnegada e heróica...(apesar de suas fraquezas) sempre melhor que o homem...rica ou pobre é o tipo de mãe extremosa, o que talvez leva à exageração do amor maternal...o caráter das brasileiras desafia a comparação de honestidade e recato com todas as senhoras das mais moralizadas nações...não há, em país algum, irmãos mais ou tão irmãos, como os brasileiros irmãos...todos os brasileiros são iguais perante a lei, mas particularmente perante o sentimento nacional, não importando sua origem europeia, índia, negra ou mestiça..." Que falta de pudor escrever estas inverdades em 1873, quando a própria Lei Áurea, que extinguiu a escravatura no Brasil, só foi sancionada em 1888!


D. Pedro I a bordo da fragata União,
Oscar Pereira da Silva

Batalha do Avaí, Pedro Américo, 1872, MNBA

O PAÍS DA PAZ
   "...O Brasil goza de uma paz privilegiada, otaviana (em referência ao Imperador romano) excepcional num mundo dominado por paixões políticas e até fratricidas e fruto da sabedoria e da bondade de um Imperador...(que tem a sorte de exercer o poder beneficiado) pelas qualidades das leis e das instituições nacionais e também da boa índole dos brasileiros..."


A messalina, Henrique Bernardelli. MNBA

A caridade, Zeferino da Costa, 1872, MNBA

Não custa aqui identificar alguns traços do ufanismo que serviu de ideologia à ditadura militar de 1964 - 85. Parece impossível imaginar que alguém tivesse coragem para contar tais mentiras "patrióticas" a respeito de uma nação que vivera a Guerra do Paraguai e praticava o tráfico de escravos.


Cena com indios, J. B. Debret

Em medidas variáveis, alguns artistas aderiram nessa época à nova ideologia (grossomodo entre 1830 - 80) porém sem se confessarem "fielmente" românticos. Hoje, a classificação de romântico pode continuar aplicando-se a certos artistas e a certas obras, aqueles que exprimirem seus sentimentos com exacerbação e paixão, suplantando o equilíbrio e a razão.

Mas abordar a produção romântica com esta leitura desvirtuaria o nosso curto texto, que pretende, simplesmente, localizar obras românticas em seu contexto histórico brasileiro. Alguns temas dos românticos europeus - como os orientalistas, com seu interesse pela África do Norte - foram substituídos pelo indianismo, para o que certamente bastante contribuíram, sobretudo, Jean-Baptiste Debret, Johann Moritz Rugendas e outros artistas estrangeiros que por aqui estiveram, no século 19.

A representação de heróis nacionais desbravando florestas e vencendo perigos é outro assunto querido dos românticos. Vamos referir alguns temas e obras de conteúdo romântico,  no período aproximado da vigência deste movimento entre nós.


Bandeirantes, H. Bernardelli, MNBA.

1. HEROIS
Henrique Bernardelli (Bandeirantes, MNBA); Oscar Pereira da Silva (D. Pedro a bordo da Fragata União); Pedro Américo (Independência ou Morte, Museu Paulista; Batalha do Avaí e Joana d'Arc, ambos no MNBA).

2. SENTIMENTOS E PAIXÕES
Figueiredo e Melo (Francesca de Rimini, MNBA); Pedro Américo (Voto de Heloisa, MNBA). Zeferino da Costa (A Caridade, MNBA).

3. SENSUALISMO FEMININO
Oscar Pereira da Silva (Escrava Romana, na Pinacoteca do Estado de SP); Henrique Bernardelli (Messalina, MNBA); Zeferino da Costa (A Pompeiana, MNBA).


Escrava romana, Oscar P.
da Silva, 1882, Pin. Est. SP

A pompeiana, Zeferino da
Costa, MNBA

Marabá, Rodolfo Amoedo, 1882, MNBA

Iracema, José M. de Medeiros, MNBA

4. INDIANISMO E ORIENTALISMO (este de inspiração europeia)
José Maria de Medeiros (Iracema, MNBA); Rodolfo Amoedo (Marabá e O Último Tamoio, ambos no MNBA); Vitor Meirelles (Moema, Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand); Pedro Américo (Rabequista Árabe, MNBA).

5. A PAISAGEM, seus encantos e mistérios
Felix Emile Taunay (Mata reduzida a carvão, MNBA, e Pedra da Mãe d’Água, MASP). Benedito Calixto (Naufrágio do Sírio, Museu de Arte Sacra de SP); Porto - Alegre (Interior de Floresta, Museu Júlio de Castilhos, RGS); Friedrich Hagedorn (Vista do Rio de Janeiro, Museus Castro Maya, RJ); Debret e Rugendas em suas Viagens Pitorescas apresentam o interior bucólico do Brasil de florestas e gentes, com muitas inspirações românticas.


Vista do Rio de Janeiro, Hagedorn, M C. Maya, Rio

Floresta, Rugendas

 

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