Pensão Mauá e Hotel Internacional
André Luiz Faria Couto
Graduação em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Mestrado em História pela UFF. Autor de verbetes para a 2ª ed. do Dicionário Histórico-Biográfico (Cpdoc-FGV) e co-editor do DVD Enciclopédias das Artes (Sabin-Rumo Certo).

Modesta pensão localizada na antiga Rua Mauá (atual Paschoal Carlos Magno) no bairro carioca de Santa Teresa, que no início da década de 1940 reunia, entre hóspedes e frequentadores habituais, alguns jovens artistas brasileiros e um expressivo número de estrangeiros, a maioria europeus e japoneses emigrados por conta da II Guerra Mundial.


Kaminagai interior

Emeric Marcier professor de Djanira

O estabelecimento pertencia a Djanira, que logo viria a se tornar um importante nome das artes plásticas brasileiras, mas que, quando a pensão foi criada, ainda não havia iniciado sua produção sistemática como pintora. Djanira estabelecera-se no morro de Santa Teresa em 1939, ali também trabalhando como modista. Em sua pensão hospedaram-se, entre outros, os pintores Milton Dacosta, Inimá de Paula e o romeno Emeric Marcier, tendo esse último exercido especial importância na formação da artista, pagando-lhe a estadia com aulas de pintura, que se estenderam por cerca de seis meses. Na mesma época, funcionavam no subsolo da pensão o ateliê e a oficina de molduras do pintor japonês Tadashi Kaminagai, que chegara ao Rio de Janeiro no início dos anos 40, após uma longa estadia em Paris. Kaminagai trazia na bagagem não só a participação em salões parisienses de artes plásticas, mas também uma larga experiência como moldureiro na capital francesa onde, segundo Teixeira Leite, trabalhou com artistas como Braque, Dérain, Foujita e Matisse. Sua molduraria em Santa Teresa acabaria se transformando num ponto de encontro de artistas plásticos, sempre muito numerosos naquele bucólico bairro. Assim, ali reuniam-se com frequência, para falar de arte e outros assuntos, diversos pintores, como o alemão Heinrich Boese, a francesa France Dupaty, o suíço Jean-Pierre Chabloz, também crítico de arte, e o belga Roger Van Rogger, além do escultor polonês August Zamoisky. Mais para o final da década, o local passou a ser frequentado pela pintora italiana Tiziana Bonazzola, casada com o crítico de arte Mário Barata. Além disso, ao longo da década, passaram pelo ateliê de Kaminagai, como alunos ou funcionários da molduraria, outros artistas de origem nipônica, como Tikashi Fukushima, Nagasawa, Takaoka e Flávio-Shiró.

Vivendo em tal ambiente, Djanira rapidamente desenvolveu sua aptidão pela pintura, não demorando para se fazer notar no cenário artístico carioca. Já em 1942, ela expunha na Divisão Moderna do Salão Nacional de Belas Artes, onde obteria, no ano seguinte, menção honrosa. Também em 1943, realizou sua primeira mostra individual, na sede da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), e, em 1944, foi incluía na Exposição de Pintores Brasileiros, realizada na Grã-Bretanha. Comentando os fatores que deflagraram a carreira artística de Djanira no início dos anos 40, o crítico Mário Barata nos apresenta o clima intelectual que então envolvia a Pensão Mauá, que ele conheceu de perto: “Foi o próprio ambiente moderno existente nos ateliês ou quadros de artistas dos morros de Santa Teresa e Paula Matos que permitiu o desenvolvimento inicial da arte de Djanira. O estímulo e a estima – em torno dela – de gente pobre ou de vida difícil, mesmo sendo artistas, atuaram nessa expansão como um tecido social envolvente. Nesse episódio não houve esnobismo, nem transplantação direta de cultura. Não ocorrem os mecenas ricos que apoiaram a Semana de 1922 e seu desenvolvimento em São Paulo”. O próprio Mário Barata, porém, faz questão de enfatizar que a rica experiência estética ali vivida não era uma simples manifestação espontânea. Segundo ele, “como para todo sistema de mutação cultural trazido com o Modernismo, o impulso de alguns europeus ou de uma elite conhecedora dos valores da nova arte foi indispensável e se fez sentir no desdobramento das conquistas que produziram, no caso de Djanira, uma nova artista”.


Djanira Inverno em Nova York 1947

Havia ainda em Santa Teresa, nessa mesma época, um outro núcleo irradiador de manifestações culturais inovadoras, produzidas a partir do convívio de artistas e intelectuais brasileiros com emigrados europeus. Trata-se da Pensão Internacional, que ocupava alguns chalés anteriormente pertencentes ao requintado e já então desativado Hotel Internacional, localizado na Rua Almirante Alexandrino. Ali pontificavam, na década de 40, o pintor húngaro Arpad Szenes e a pintora portuguesa Maria Helena Vieira da Silva, que eram casados. Entre os moradores da Pensão Internacional estavam, por exemplo, o crítico de arte Rubem Navarra, o cientista Leite Lopes, o poeta português Antônio Boto, o arquiteto belga Jacques Van der Beuque e o pintor Carlos Scliar. O local, onde Szenes estabeleceu o seu ateliê e lecionou pintura, era frequentado também por outros intelectuais e artistas, como os poetas Murilo Mendes e Cecília Meireles, o pintor e escultor Athos Bulcão, o cenógrafo e diretor de teatro Eros Martim Gonçalves e os escritores franceses Michel Simon e Roger Caillois.

Embora Teixeira Leite afirme que a Pensão Mauá formasse “uma espécie de contraponto modesto ao outro núcleo mais intelectualizado”, representado pelo pessoal do Hotel Internacional, a verdade é que os dois núcleos não só integravam um mesmo ambiente intelectual e artístico, como mantinham, entre si, uma fértil interlocução, possibilitada, é certo, pela proximidade física de seus integrantes no bucólico morro de Santa Teresa, mas, sobretudo, pela afinidade de interesses que havia entre eles e pela condição de refugiados de guerra em que muitos se encontravam.

Em 1986, a Galeria de Arte Banerj, do Rio de Janeiro, promoveu a exposição Tempo de Guerra – Hotel Internacional e Pensão Mauá, com curadoria e texto de apresentação de Frederico Morais, focalizando o ambiente artístico e cultural que se desenvolveu nos dois estabelecimentos de Santa Teresa.

 

Fontes
- LEITE, José Roberto Teixeira. Dicionário Crítico da Pintura no Brasil. Rio de Janeiro: Artlivre, 1988. (Verbetes: Djanira, p.164; Pensão Mauá, p.401; Hotel Internacional, p.249).
- BARATA, Mário. “Djanira: época, via e obra”. In: A arte sob o olhar de Djanira; Coleção Museu Nacional de Belas Artes. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul Design, 2005.
- Itaú Cultural – Verbetess: Djanira e Tadashi Kaminagai.
<http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_ic/index.cfm?fuseaction=busca_completa>