Tommaso Marinetti

O FUTURISMO NO BRASIL
e um poema futurista de Fernando Pessoa
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Em 20 de fevereiro de 1909 o jornal parisiense Le Figaro publicou um texto polêmico, que incensava as vanguardas intelectuais, propondo modificações de atitude e avanços sociais no caminho de uma suposta modernidade.

O autor desse primeiro Manifesto futurista era o escritor, ideólogo e ativista Filippo Tommaso Godoy Marinetti, cidadão italiano nascido em Alexandria em 1876 e falecido em Bellagio, Itália, em 1944. Originário de uma rica família, pôde estudar em Paris e Pádua, terminando por diplomar-se em direito na Universidade de Gênova.

Eram tempos conturbados e um gigantesco cataclismo se aproximava inexoravelmente, a Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Marinetti , que entre suas propostas incluía a glorificação das guerras, voltou definitivamente à Itália, alistou-se no exército e participou da invasão da indefesa Etiópia pelas hostes italianas, ostentando o posto de capitão. Em 1919 filiou-se ao Partido Nacional Fascista, que mais tarde iria aliar-se ao nazismo alemão.

O Futurismo, com suas sugestões dúbias, até insólitas, mas sem dúvida estimulantes, espalhou-se por vários países europeus e americanos, sobretudo na Itália. Como movimento autônomo, praticamente desapareceu após aquela Guerra, todavia seus efeitos perduraram  em diversas manifestações intelectuais e artísticas que o sucederam, como foi o caso do Dadaísmo. Após a I Guerra, Fortunato Depero  (1892 - 1960) tentou ressuscitar um novo momento futurista, mas sem a força original, e o movimento praticamente desapareceu. O caudal teórico provocado pelo futurismo originou, entre 1909 e 1916, em diversas nações,  mais uns 30 manifestos, embora sua produção artística não fosse assim tão copiosa.

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AS PROPOSTAS DO MANIFESTO FUTURISTA

Na diatribe de Marinetti as recomendações por vezes se sobrepõem ou se repetem. Procuramos separar e reagrupar as ideias em blocos, segundo suas linhas fundamentais.

Assumir as mudanças necessárias com voluntarismo, coragem e destemor

"Nós queremos cantar o amor ao perigo, o hábito da energia e da temeridade / A coragem, a audácia, a rebelião serão elementos essenciais de nossa poesia / Em verdade eu lhes declaro que a frequência diária aos museus, às bibliotecas e às academias (cemitérios de esforços vãos, calvários de sonhos crucificados, registro de arremessos truncados!...) é para os artistas tão prejudicial, quanto a tutela prolongada dos pais para certos jovens ébrios de engenho e de vontade ambiciosa. Para os moribundos, para os enfermos, para os prisioneiros, vá lá:- o admirável passado é, quiçá, um bálsamo para seus males, visto que para eles o porvir está trancado... Mas nós não queremos nada com o passado, nós, jovens e fortes futuristas! / E venham, pois, os alegres incendiários de dedos carbonizados! Ei-los! Ei-los!... Vamos! Ateiem fogo às estantes das bibliotecas!... Desviem o curso dos canais, para inundar os museus!... Oh! a alegria de ver boiar à deriva, laceradas e desbotadas sobre aquelas águas, as velhas telas gloriosas!... Empunhem as picaretas, os machados, os martelos e destruam sem piedade as cidades veneradas!"

 

Demolir o passado

"A coragem, a audácia, a rebelião serão elementos essenciais de nossa poesia / Nós estamos no promontório extremo dos séculos!... Por que haveríamos de olhar para trás, se queremos arrombar as misteriosas portas do Impossível? O Tempo e o Espaço morreram ontem. Nós já estamos vivendo no absoluto, pois já criamos a eterna velocidade onipresente / Nós queremos destruir os museus, as bibliotecas, as academia de toda natureza, e combater o moralismo, o feminismo e toda vileza oportunista e utilitária / É da Itália, que nós lançamos pelo mundo este nosso manifesto de violência arrebatadora e incendiária, com o qual fundamos hoje o "Futurismo", porque queremos libertar este país de sua fétida gangrena de professores, de arqueólogos, de cicerones e de antiquários / Já é tempo de a Itália deixar de ser um mercado de belchiores. Nós queremos libertá-la dos inúmeros museus que a cobrem toda de inúmeros cemitérios / Museus: cemitérios!... Idênticos, na verdade, pela sinistra promiscuidade de tantos corpos que não se conhecem. Museus: dormitórios públicos em que se descansa para sempre junto a seres odiados ou desconhecidos! Museus: absurdos matadouros de pintores e escultores, que se vão trucidando ferozmente a golpes de cores e linhas, ao longo das paredes disputadas! / Que se vá lá em peregrinação, uma vez por ano, como se vai ao Cemitério no dia de finados... Passe. Que uma vez por ano se deponha uma homenagem de flores diante da Gioconda, concedo.../ Mas não admito que se levem passear, diariamente pelos museus, nossas tristezas, nossa frágil coragem, nossa inquietude doentia, mórbida. Para que se envenenar? Para que apodrecer? / Vocês querem, pois, desperdiçar todas as suas melhores forças nesta eterna e inútil admiração do passado, da qual vocês só podem sair fatalmente exaustos, diminuídos e pisados?"

 

Mudar os rumos das artes

"É preciso que o poeta prodigalize com ardor, fausto e munificência, para aumentar o entusiástico fervor dos elementos primordiais / Não há mais beleza, a não ser na luta. Nenhuma obra que não tenha um caráter agressivo pode ser uma obra-prima. A poesia deve ser concebida como um violento assalto contra as forças desconhecidas, para obrigá-las a prostrar-se diante do homem / E o que mais se pode ver, num velho quadro, senão a fatigante contorção do artista que se esforçou para infringir as insuperáveis barreiras opostas ao desejo de exprimir inteiramente seu sonho?... Admirar um quadro antigo equivale a despejar nossa sensibilidade numa urna funerária, no lugar de projetá-la longe, em violentos jatos de criação e de ação."

 

Glorificar a violência e a guerra

"Nós queremos glorificar a guerra - única higiene do mundo - o militarismo, o patriotismo, o gesto destruidor dos libertários, as belas ideias pelas quais se morre e o desprezo pela mulher " (Parece, no mínimo estranha, a proposta de glorificar o desprezo pela mulher! E, em outro artigo, para não deixar margens a dúvidas, Marinetti propõe a destruição do feminismo).

 

Saudar os novos tempos das realizações científicas e industriais

"Nós afirmamos que a magnificência do mundo enriqueceu-se de uma beleza nova: a beleza da velocidade. Um automóvel de corrida com seu cofre enfeitado com tubos grossos, semelhantes a serpentes de hálito explosivo... um automóvel rugidor, que corre sobre a metralha, é mais bonito que a Vitória de Samotrácia / Nós queremos entoar hinos ao homem que segura o volante, cuja haste ideal atravessa a Terra, lançada também numa corrida sobre o circuito da sua órbita / Nós cantaremos as grandes multidões agitadas pelo trabalho, pelo prazer ou pela sublevação; cantaremos as marés multicores e polifônicas das revoluções nas capitais modernas; cantaremos o vibrante fervor noturno dos arsenais e dos estaleiros incendiados por violentas luas elétricas; as estações esganadas, devoradoras de serpentes que fumam; as oficinas penduradas às nuvens pelos fios contorcidos de suas fumaças; as pontes, semelhantes a ginastas gigantes que cavalgam os rios, faiscantes ao sol com um luzir de facas; os piróscafos aventurosos que farejam o horizonte, as locomotivas de largo peito, que pateiam sobre os trilhos, como enormes cavalos de aço enleados de carros; e o voo rasante dos aviões, cuja hélice freme ao vento, como uma bandeira, e parece aplaudir como uma multidão entusiasta."

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O tempo parece não haver dado razão ao poeta militante. A Vitória de Samotrácia (escultura grega) e a Gioconda (quadro de Leonardo da Vinci) continuam no Museu do Louvre, em Paris, encantando milhões de visitantes; os museus e monumentos da Itália não desapareceram e até contribuem para a economia do país com as visitas de 60 milhões de apaixonados turistas por ano. Enquanto os manifestos e poemas de Marinetti sobreviveram à história de maneira modesta e apagada - para não falar da herança do fascismo, que a maioria dos concidadãos de Marinetti deseja esquecer para sempre.

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Conforme relato de Orlando Barros (As viagens de Marinetti ao Brasil em 1926 e 1936) Marinetti esteve no país em 1926 e 1936. A iniciativa da visita à América do Sul foi do empresário Niccolino Viggiani, que não tinha o perfil de um mecenas.


São Paulo, 1936, a plateia aguarda Marinetti

Na primeira data, o poeta  teve ocasião de pronunciar uma palestra no Teatro Lírico do Rio de Janeiro, onde foi apresentado pelo escritor Graça Aranha, tendo razoável acolhimento. Nessa mesma viagem esteve em São Paulo, onde já enfrentou a oposição dos estudantes anti-fascistas e dos exilados italianos, que se encontravam no Brasil fugindo das perseguições políticas em seu país. Segundo Marinetti afirmou então, ele vinha para falar de arte e não para fazer propaganda, o que não chegou a convencer todos os circunstantes.

Na segunda visita, em 1936, o ambiente político nacional estava exacerbado pela corrente integralista, francamente admiradora de Mussolini e do fascismo. Marinetti chegava de um congresso em Buenos Aires e apresentou-se na condição de poeta-soldado ao serviço de uma ideologia, sendo acolhido pelos integralistas em clima de festa.

Na década de 1920-1930 houve alguma repercussão da estética futurista no Brasil, enquanto  aqui acontecia o movimento modernista. As perplexidades e as confusões levaram mesmo a serem  classificados como futuristas alguns artistas modernistas, como os participantes da Semana de Arte Moderna em 1922, título que depois foi veemente rejeitado pelos próprios artistas.

"... Na verdade, se o Futurismo marinettiano teve alguma repercussão nas letras brasileiras, através da atuação de poetas e escritores como Oswald de Andrade, Menotti del Picchia, Agenor Barbosa e Ronald de Carvalho, pouca ou nenhuma iria tê-la no campo das artes visuais, até porque, com a adesão de Marinetti ao Fascismo de Mussolini, em 1919, o movimento foi-se esvaziando e perdendo o apoio dos jovens." (José Roberto Teixeira Leite, Dicionário Crítico da Pintura no Brasil, Artlivre, 1989, pág. 213).

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CUBOFUTURISMO

Relacionado a algumas teses do futurismo surgiu na Rússia, no início do século 20, um movimento que ficou conhecido como cubofuturismo. Em 1908 o poeta Velimir Khlebnikov  escrevia versos que já poderiam ser classificados como vanguarda cubofuturista. Em 1913 o pintor Kazimir Malevich apresentou seu O amolador de facas, que aliava as formas cubistas à ideia do movimento. Alguns artistas de vanguarda, pintores, escultores, poetas e escritores, entre eles, o poeta Vladimir Mayakovsky, exploraram este filão, que também inseriu o percurso da arte primitivista. David Burliuk, poeta e pintor, conseguiu aglutinar os diversos artistas em torno de propostas comuns, que visavam o progresso social e apoio às forças da mudança política. Este grupo chamava-se Hylaea e a ele pertenceram igualmente Velimir Khlebnikov e Aleksei Kruchenykh. Para defender suas teses, o Hylaea  apresentou em 1912 um manifesto intitulado A bofetada no gosto público.

Na década seguinte a estes acontecimentos aconteceu a Revolução Russa de 1917. Foi uma época de grandes convulsões sociais, que levou alguns destes artistas a se engajarem na revolução e outros a emigrarem. O regime socialista infligiu regras duras a toda a sociedade e, mais tarde, impôs um modelo estético, o realismo socialista, que excluía todos os intelectuais dissidentes. E os esforços inovadores daqueles artistas vanguardistas do início do século 20 ficaram escondidos atrás de um muro de silêncio pela parte do mundo ocidental.

O fato é que os artistas de Paris, ou radicados em Paris, passaram à história com os louros das inovações da arte moderna do século 20, e decorreram muitos anos até que fosse reconhecida universalmente - e se fizesse justiça -  à contribuição dos russos neste campo.

 

OBRAS FUTURISTAS (artes visuais)

UMBERTO BOCCIONI (1882-1916)

Em 1952 o mecenas paulista Ciccillo Matarazzo adquiriu os gessos originais de duas obras de Boccioni, das quais foram feitas cópias em bronze (Desenvolvimento de uma garrafa no espaço e Formas únicas de continuidade no espaço) e as doou ao Museu de Arte Contemporânea da USP - MAC/USP. 


Umberto Boccioni (1882-1916) Formas únicas de continuidade
no espaço
, bronze, 111,2 cm de altura por 88,5 cm de
comprimento e 40 cm de largura, 1913. O gesso original integra
o acervo do MAC-USP. Um corpo em movimento que parece
esvoaçar enquanto se desloca, avançando contra uma força invisível.

 


Umberto Boccioni (1882-1916) Desenvolvimento de uma garrafa
no espaço
, 39,5 x 39,5 x 32,8, 1912, MAC-USP

 


Luigi Russsolo (1885-1947) Impressões de um bombardeamento, 1926

 


Giacomo Balla (1871-1958) Automóvel em movimento

 


Gino Severini (1883-1966) Palavras em liberdade

 


Mikhail Fyodorovich Larionov (1881-1964). Composição

 


Mikhail Fyodorovich Larionov (1881-1964). Dançarino
em movimento (figurino), 1915

 


Natalia Sergeyevna Goncharova (1881-1962). O ciclista, 1912-13

 

O leitor encontrará neste portal, no satélite Dicionário de Arte Internacional, informações pertinentes ao Futurismo, nos verbetes:  Cubismo. Dadaísmo. Pontilhismo. Vorticismo.

ANEXOS

Futurismo - fontes
Futurismo na Ode Triunfal de Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)

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1.
Fontes impressas

BARROS, Orlando de, O pai do futurismo no país do futuro: As viagens de Marinetti ao Brasil em 1926 e 1936, Editora E-papers, 2010
FABRIS, Annateresa, O Futurismo paulista: hipóteses para o estudo da chegada da vanguarda ao Brasil, Ed.Perspectiva, São Paulo, 1994.
ROCHA, João Cezar de Castro, O Brasil mítico de Marinetti, Folha de São Paulo, 12/05/ 2002
TEIXEIRA LEITE, José Roberto, Dicionário Crítico da Pintura no Brasil, pág. 213, Artlivre, Rio de Janeiro, 1985

Fontes na Internet
http://pt.wikipedia.org/wiki/Futurismo
http://pt.wikipedia.org/wiki/Manifesto_Futurista
http://www.futurismo.noradar.com/artistas_do_futurismo.htm
http://etudeslusophonesparis4.blogspot.com.br/2012/05/publication-le-futurisme-et-les-avant.html
http://www.theartstory.org/movement-futurism.htm
http://www.arteespana.com/futurismo.htm
http://www.settemuse.it/arte/corrente_futurismo.htm
http://www.kunst-zeiten.de/Futurismus

2.
O Futurismo na Ode Triunfal Fernando Pessoa
O poeta português, através de seu heterônimo (Álvaro de Campos) teve seus momentos de inspiração nitidamente futurista.

Álvaro de Campos
Ode Triunfal

À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica
Tenho febre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.

Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!
Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!
Em fúria fora e dentro de mim,
Por todos os meus nervos dissecados fora,
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!
Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,
De vos ouvir demasiadamente de perto,
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
De expressão de todas as minhas sensações,
Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!

Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical -
Grandes trópicos humanos de ferro e fogo e força -
Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro.
Porque o presente é todo o passado e todo o futuro
E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes eléctricas
Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão,
E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinquenta,
Átomos que hão-de ir ter febre para o cérebro do Ésquilo do século cem,
Andam por estas correias de transmissão e por estes êmbolos e por estes volantes,
Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando,
Fazendo-me um excesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma.

Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!
Ser completo como uma máquina!
Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo!
Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto,
Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento
A todos os perfumes de óleos e calores e carvões
Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável!
Fraternidade com todas as dinâmicas!
Promíscua fúria de ser parte-agente
Do rodar férreo e cosmopolita
Dos comboios estrênuos.
Da faina transportadora-de-cargas dos navios.
Do giro lúbrico e lento dos guindastes,
Do tumulto disciplinado das fábricas,
E do quase-silêncio ciciante e monótono das correias de transmissão!
Horas europeias, produtoras, entaladas
Entre maquinismos e afazeres úteis!
Grandes cidades paradas nos cafés,
Nos cafés - oásis de inutilidades ruidosas
Onde se cristalizam e se precipitam
Os rumores e os gestos do Útil
E as rodas, e as rodas-dentadas e as chumaceiras do Progressivo!
Nova Minerva sem-alma dos cais e das gares!
Novos entusiasmos de estatura do Momento!
Quilhas de chapas de ferro sorrindo encostados às docas,
Ou a seco, erguidas, nos planos-inclinados dos portos!
Atividade internacional, transatlântica, Canadian-Pacific!
Luzes e febris perdas de tempo nos bares, nos hotéis,
Nos Longchamps e nos Derbies e nos Ascots,
E Piccadillies e Avenues de l'Opéra que entram
Pela minh'alma dentro!

Hé-lá as ruas, hé-lá as praças, hé-lá-hô la foule!
Tudo o que passa, tudo o que pára às montras!
Comerciantes; vários; escrocs exageradamente bem-vestidos;
Membros evidentes de clubes aristocráticos;
Esquálidas figuras dúbias; chefes de família vagamente felizes
E paternais até na corrente de oiro que atravessa o colete
De algibeira a algibeira!
Tudo o que passa, tudo o que passa e nunca passa!
Presença demasiadamente acentuada das cocotes
Banalidade interessante (e quem sabe o quê por dentro?)
Das burguesinhas, mãe e filha geralmente
Que andam na rua com um fim qualquer;
A graça feminil e falsa dos pederastas que passam, lentos;
E toda a gente simplesmente elegante que passeia e se mostra
E afinal tem alma lá dentro!

(Ah, como eu desejaria ser o souteneur disto tudo!)

A maravilhosa beleza das corrupções políticas,
Deliciosos escândalos financeiros e diplomáticos,
Agressões políticas nas ruas,
E de vez em quando o cometa dum regicídio
Que ilumina de Prodígio e Fanfarra os céus
Usuais e lúcidos da Civilização quotidiana!

Notícias desmentidas dos jornais,
Artigos políticos insinceramente sinceros,
Notícias passez à-la-caisse, grandes crimes -
Duas colunas deles passando para a segunda página!
O cheiro fresco a tinta de tipografia!
Os cartazes postos há pouco, molhados!
Vients-de-paraître amarelos como uma cinta branca!
Como eu vos amo a todos, a todos, a todos,
Como eu vos amo de todas as maneiras,
Com os olhos e com os ouvidos e com o olfato
E com o tacto (o que palpar-vos representa para mim!)
E com a inteligência como uma antena que fazeis vibrar!
Ah, como todos os meus sentidos têm cio de vós!

Adubos, debulhadoras a vapor, progressos da agricultura!
Química agrícola, e o comércio quase uma ciência!
Ó mostruários dos caixeiros-viajantes,
Dos caixeiros-viajantes, cavaleiros-andantes da Indústria,
Prolongamentos humanos das fábricas e dos calmos escritórios!

Ó fazendas nas montras! ó manequins! ó últimos figurinos!
Ó artigos inúteis que toda a gente quer comprar!
Olá grandes armazéns com várias seções!
Olá anúncios eléctricos que vêm e estão e desaparecem!
Olá tudo com que hoje se constrói, com que hoje se é diferente de ontem!
Eh, cimento armado, beton de cimento, novos processos!
Progressos dos armamentos gloriosamente mortíferos!
Couraças, canhões, metralhadoras, submarinos, aeroplanos!

Amo-vos a todos, a tudo, como uma fera.
Amo-vos carnivoramente,
Pervertidamente e enroscando a minha vista
Em vós, ó coisas grandes, banais, úteis, inúteis,
Ó coisas todas modernas,
Ó minhas contemporâneas, forma atual e próxima
Do sistema imediato do Universo!
Nova Revelação metálica e dinâmica de Deus!

Ó fábricas, ó laboratórios, ó music-halls, ó Luna-Parks,
ó couraçados, ó pontes, ó docas flutuantes -
Na minha mente turbulenta e encandescida
Possuo-vos como a uma mulher bela,
Completamente vos possuo como a uma mulher bela que não se ama,
Que se encontra casualmente e se acha interessantíssima.

Eh-lá-hô fachadas das grandes lojas!
Eh-lá-hô elevadores dos grandes edifícios!
Eh-lá-hô recomposições ministeriais!
Parlamentos, políticas, relatores de orçamentos,
Orçamentos falsificados!
(Um orçamento é tão natural como uma árvore
E um parlamento tão belo como uma borboleta.)

Eh-lá o interesse por tudo na vida,
Porque tudo é a vida, desde os brilhantes nas montras
Até à noite ponte misteriosa entre os astros
E o mar antigo e solene, lavando as costas
E sendo misericordiosamente o mesmo
Que era quando Platão era realmente Platão
Na sua presença real e na sua carne com a alma dentro,
E falava com Aristóteles, que havia de não ser discípulo dele.

Eu podia morrer triturado por um motor
Com o sentimento de deliciosa entrega duma mulher possuída.
Atirem-me para dentro das fornalhas!
Metam-me debaixo dos comboios!
Espanquem-me a bordo de navios!
Masoquismo através de maquinismos!
Sadismo de não sei quê moderno e eu e barulho!

Up-lá hô jockey que ganhaste o Derby,
Morder entre dentes o teu cap de duas cores!

(Ser tão alto que não pudesse entrar por nenhuma porta!
Ah, olhar é em mim uma perversão sexual!)

Eh-lá, eh-lá, eh-lá, catedrais!
Deixai-me partir a cabeça de encontro às vossas esquinas,
E ser levado da rua cheio de sangue
Sem ninguém saber quem eu sou!

Ó tramways, funiculares, metropolitanos,
Roçai-vos por mim até o espasmo!
Hilla! hilla! hilla-hô!
Dai-me gargalhadas em plena cara,
Ó automóveis apinhados de pândegos e de putas,
Ó multidões quotidianas nem alegres nem tristes das ruas,
Rio multicolor anónimo e onde eu me posso banhar como quereria!
Ah, que vidas complexas, que coisas lá pelas casas de tudo isto!
Ah, saber-lhes as vidas a todos, as dificuldades de dinheiro,
As dissensões domésticas, os deboches que não se suspeitam,
Os pensamentos que cada um tem a sós consigo no seu quarto
E os gestos que faz quando ninguém pode ver!
Não saber tudo isto é ignorar tudo, ó raiva,
Ó raiva que como uma febre e um cio e uma fome
Me põe a magro o rosto e me agita às vezes as mãos
Em crispações absurdas em pleno meio das turbas
Nas ruas cheias de encontrões!

Ah, e a gente ordinária e suja, que parece sempre a mesma,
Que emprega palavrões como palavras usuais,
Cujos filhos roubam às portas das mercearias
E cujas filhas aos oito anos - e eu acho isto belo e amo-o! -
Masturbam homens de aspecto decente nos vãos de escadas.
A gentalha que anda pelos andaimes e que vai para casa
Por vielas quase irreais de estreiteza e podridão.
Maravilhosa gente humana que vive como os cães,
Que está abaixo de todos os sistemas morais,
Para quem nenhuma religião foi feita,
Nenhuma arte criada,
Nenhuma política destinada para eles!
Como eu vos amo a todos, porque sois assim,
Nem imorais de tão baixos que sois, nem bons nem maus,
Inatingíveis por todos os progressos,
Fauna maravilhosa do fundo do mar da vida!

(Na nora do quintal da minha casa
O burro anda à roda, anda à roda,
E o mistério do mundo é do tamanho disto.
Limpa o suor com o braço, trabalhador descontente.
A luz do sol abafa o silêncio das esferas
E havemos todos de morrer, ó pinheirais sombrios ao crepúsculo,
Pinheirais onde a minha infância era outra coisa
Do que eu sou hoje... )

Mas, ah outra vez a raiva mecânica constante!
Outra vez a obsessão movimentada dos ônibus.
E outra vez a fúria de estar indo ao mesmo tempo dentro de todos os comboios
De todas as partes do mundo,
De estar dizendo adeus de bordo de todos os navios,
Que a estas horas estão levantando ferro ou afastando-se das docas.
Ó ferro, ó aço, ó alumínio, ó chapas de ferro ondulado!
Ó cais, ó portos, ó comboios, ó guindastes, ó rebocadores!

Eh-lá grandes desastres de comboios!
Eh-lá desabamentos de galerias de minas!
Eh-lá naufrágios deliciosos dos grandes transatlânticos!
Eh-lá-hô revoluções aqui, ali, acolá,
Alterações de constituições, guerras, tratados, invasões,
Ruído, injustiças, violências, e talvez para breve o fim,
A grande invasão dos bárbaros amarelos pela Europa,
E outro Sol no novo Horizonte!

Que importa tudo isto, mas que importa tudo isto
Ao fúlgido e rubro ruído contemporâneo,
Ao ruído cruel e delicioso da civilização de hoje?
Tudo isso apaga tudo, salvo o Momento,
O Momento de tronco nu e quente como um fogueiro,
O Momento estridentemente ruidoso e mecânico,
O Momento dinâmico passagem de todas as bacantes
Do ferro e do bronze e da bebedeira dos metais.

Eia comboios, eia pontes, eia hotéis à hora do jantar,
Eia aparelhos de todas as espécies, férreos, brutos, mínimos,
Instrumentos de precisão, aparelhos de triturar, de cavar,
Engenhos, brocas, máquinas rotativas!

Eia! eia! eia!
Eia eletricidade, nervos doentes da Matéria!
Eia telegrafia-sem-fios, simpatia metálica do Inconsciente!
Eia túneis, eia canais, Panamá, Kiel, Suez!
Eia todo o passado dentro do presente!
Eia todo o futuro já dentro de nós! eia!
Eia! eia! eia!
Frutos de ferro e útil da árvore-fábrica cosmopolita!
Eia! eia! eia! eia-hô-ô-ô!
Nem sei que existo para dentro. Giro, rodeio, engenho-me.
Engatam-me em todos os comboios.
Içam-me em todos os cais.
Giro dentro das hélices de todos os navios.
Eia! eia-hô! eia!
Eia! sou o calor mecânico e a eletricidade!

Eia! e os rails e as casas de máquinas e a Europa!
Eia e hurrah por mim-tudo e tudo, máquinas a trabalhar, eia!

Galgar com tudo por cima de tudo! Hup-lá!

Hup-lá, hup-lá, hup-lá-hô, hup-lá!
Hé-la! He-hô! Ho-o-o-o-o!
Z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z!

Ah não ser eu toda a gente e toda a parte!

Álvaro de Campos