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MISSÃO ARTÍSTICA FRANCESA
André Luiz Faria Couto

Graduação em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Mestrado em História pela UFF. Autor de verbetes para a 2ª ed. do Dicionário Histórico-Biográfico (Cpdoc-FGV) e co-editor do DVD Enciclopédias das Artes (Sabin-Rumo Certo).


A. Muller, Retrato de Grandjean de Montigny, MNBA

Nome pelo qual ficou conhecido o grupo de artistas e artesãos franceses que chegou ao Rio de Janeiro em 26 de março de 1816, contratado pela Coroa portuguesa para introduzir o ensino formal de artes e ofícios no Brasil. Chefiada pelo escritor Joachim Lebreton (1760-1819), a Missão era composta por artistas de sólida formação acadêmica, identificados com os princípios estéticos neoclássicos, como o pintor de paisagem Nicolas Antoine Taunay (1755-1830), seu irmão, o escultor Auguste Marie Taunay (1768-1824), o também pintor e desenhista Jean Baptiste Debret (1768-1848), o gravador Charles Simon Pradier (1783-1847) e o arquiteto Auguste Henri Victor Grandjean de Montigny (1776-1850); além do professor de mecânica François Ovide e alguns especialistas em ofícios mecânicos (serralheiro, ferreiro, carpinteiro, curtidor). No ano seguinte, chegaram ao Brasil, para juntarem-se aos seus compatriotas, o escultor Marc Ferrez (1788-1850) e o gravador Zéphyrin Ferrez (1797-1851), que eram irmãos. Antigos partidários do governo de Napoleão Bonaparte na França, esses artistas encontravam-se politicamente marginalizados em seu país desde a queda definitiva do regime napoleônico e a recondução dos Bourbon ao trono francês, em 1815.


António de Araújo e Azevedo, Conde da Barca

A contratação da Missão Artística Francesa integrou os esforços, então empreendidos pelo governo português, no sentido de dotar o Rio de Janeiro de uma vida cultural compatível com a função assumida pela cidade desde 1808, a de capital do império marítimo lusitano. Com efeito, foi a intenção de constituir uma sociedade culta ao redor da Corte portuguesa transplantada para os trópicos que motivou a criação, no Rio, de diversas instituições que deixariam marcas na história da cidade e do país, como a Escola de Anatomia, Medicina e Cirurgia, a Academia Real Militar, o Jardim Botânico, o Museu Real (atual Museu Nacional) e a Imprensa Régia, bem como a transferência para o Rio de uma parte considerável do acervo da Biblioteca Real portuguesa, ponto de partida para a formação da Biblioteca Nacional. Nesse contexto, os artistas franceses que aqui chegaram em 1816 tinham a incumbência de dar vida à Escola Real de Ciências, Artes e Ofícios, criada oficialmente em agosto daquele ano. Como o seu próprio nome indica, a instituição foi concebida originalmente para promover tanto o ensino de Belas Artes quanto o de ofícios mecânicos. Seus trabalhos só seriam efetivamente iniciados, porém, uma década depois, mais precisamente em novembro de 1826, já então rebatizada como Academia Imperial de Belas Artes (AIBA).


Henrique José da Silva, Dom Pedro I

A origem da Missão é motivo de controvérsias. Uma das versões afirma que a iniciativa de sua criação partiu do governo português, interessado em estabelecer uma academia de arte no Brasil. Assim, estimulado por Antônio de Araújo de Azevedo (conde da Barca), ministro de Assuntos Estrangeiros do governo português, o marquês de Marialva, embaixador de Portugal na França, teria procurado Lebreton em Paris e lhe solicitado que arregimentasse o grupo. Segundo uma outra versão, porém, teriam sido os próprios artistas franceses que, sentindo-se desprestigiados em seu país após a restauração bourbônica, ofereceram seus serviços à Corte portuguesa. As duas versões, na verdade, não são excludentes; e o que parece ter realmente ocorrido foi uma combinação entre o interesse dos artistas franceses de deixarem seu país após o fim da era napoleônica e a intenção do governo português de contratar elementos com sólida formação acadêmica para promover o ensino sistemático de arte no Brasil.


J. B. Debret, Dom João VI, MNBA

Ao chegarem ao Rio de Janeiro, porém, os artistas franceses enfrentaram enormes dificuldades para colocar em prática seus objetivos. Em que pese o apoio inicial obtido de elementos como o Conde da Barca, o grande incentivador do projeto, os integrantes da Missão tiveram que enfrentar a desconfiança e a hostilidade de muitos artistas brasileiros e portugueses, que se viram preteridos com a sua chegada, no que foram apoiados por uma parte da burocracia lusitana aqui instalada. O próprio representante diplomático da França no Brasil, o cônsul Maler, manifestava uma nítida má vontade com aquele grupo de artistas que, pouco tempo antes, estivera comprometido com o regime bonapartista em sua pátria. A morte do conde da Barca, em 1817, seguida pela de Lebreton, em 1819, enfraqueceriam ainda mais a posição dos artistas franceses. O escolhido para substituir Lebreton na direção da Academia recém-criada foi o pintor português Henrique José da Silva (1772-1834), assumidamente hostil aos franceses e protegido do barão de São Lourenço, que sucedera o Conde da Barca no comando do Ministério dos Assuntos Estrangeiros. Diante das dificuldades encontradas, não demorou para que a Missão começasse a sofrer suas primeiras baixas. Já em 1818, Charles Pradier viajou para França para executar gravuras de Debret, que não tinham como ser impressas adequadamente no Rio de Janeiro, e não regressou mais ao Brasil. O sexagenário Nicolas Taunay, insatisfeito com as dificuldades criadas por Henrique José da Silva à ação dos franceses, também resolveu retornar ao seu país, em 1821. Seu irmão, Auguste Taunay, permaneceu no Rio de Janeiro, mas morreria pouco depois, em 1824. Por outro lado, já cansados de esperar pelo início das aulas para as quais haviam sido contratados, em 1821 Debret e Grandjean de Montigny tomaram a iniciativa de alugar uma casa no centro da cidade, onde começaram a lecionar pintura e arquitetura, respectivamente.


Nicolas Antoine Taunay

Enquanto esperavam pela instalação da escola, alguns membros da Missão receberam encomendas oficiais. Já em 1817, por exemplo, Debret tomou parte nos preparativos das comemorações pela chegada da futura imperatriz, dona Leopoldina, ao Brasil. Em fevereiro do ano seguinte, Debret, Grandjean de Montigny e Nicolas Taunay participaram da confecção dos elementos cenográficos de inspiração neoclássica utilizados nos festejos pela coroação de dom João VI, ocorridos no Largo do Paço (atual Praça XV), no centro da cidade. Posteriormente, Debret se tornaria uma espécie de pintor oficial do Primeiro Império, tomando parte nas comemorações pela coroação de dom Pedro I, realizando projetos para a bandeira e brasões do Império, produzindo telas para o governo e a família real e, durante anos, exercendo a função de cenógrafo do Real Teatro São João. Debret foi, sem dúvida, o integrante da Missão Francesa que maiores marcas deixou no país; não tanto, certamente, pelos trabalhos que lhe foram encomendados pelo governo e pela família real, mas por seu envolvimento com o ensino da pintura e, principalmente, pelas aquarelas em que retratou a paisagem natural, os tipos humanos e os costumes sociais que então vigoravam no Brasil. Pintor formado na escola neoclássica francesa de Jean Louis Davis, de quem era parente, acabou por afastar-se do neoclassicismo ao esforçar-se “para fazer uma arte que incorporasse certos traços da sociabilidade brasileira”. (NAVES, 1996, p.46) Após viver cerca de quinze anos no Brasil, Debret retornaria à França em 1831, levando consigo seu aluno dileto, Manuel de Araújo Porto-Alegre (1806-1879), que mais tarde, de volta ao Brasil, realizaria trabalho de vulto como diretor da AIBA.

Grandjean de Montigny, por sua vez, foi encarregado de projetar alguns importantes edifícios públicos, entre os quais o da Praça do Comércio (depois ocupado pela Alfândega e atualmente pela Casa França-Brasil) e o da própria Academia Imperial de Belas Artes, que seria demolido em 1938. Tais edifícios, bem como o da sua residência, no bairro carioca da Gávea, hoje incorporado à Pontifícia Universidade Católica (PUC-RJ), são considerados marcos importantes da arquitetura neoclássica no Brasil. Grandjean permaneceria no Rio de Janeiro até à data de sua morte, em 1850, quando contava 74 anos.


François Gérard, Retrato de J. Lebreton

O legado da Missão Artística Francesa é motivo de muita controvérsia entre historiadores e estudiosos do tema. De um lado, não resta dúvida de que ela cumpriu papel decisivo na atualização da arte e da arquitetura brasileiras, que até às primeiras décadas do século XIX só haviam sido tocadas muito timidamente pelos princípios estéticos do neoclassicismo, difundidos na Europa desde meados do século anterior. O principal fruto deixado pela Missão, a Academia Imperial de Belas Artes, permitiu a formação, entre nós, de um grande número de pintores, escultores, gravadores e arquitetos com sólida base acadêmica, tendo introduzido elementos de erudição num ambiente artístico ainda fortemente marcado pelo empirismo. Dessa forma, por quase um século, a AIBA ditou, em grande medida, os padrões de produção e recepção de arte no Brasil. A Enciclopédia Itaú Cultural de Artes Visuais acrescenta que a Missão Francesa contribuiu também para que se afirmasse no país uma concepção de arte como “ação cultural leiga”, bem como a ideia de artista como um ser livre, que não se confunde com a “figura do artista-artesão, submetido à Igreja e seus temas”. De outro lado, há os que, como Teixeira Leite, contestam a tese de que a cultura brasileira estivesse desatualizada em princípios do século XIX, e caracterizam a Missão Francesa como um “corpo estranho introduzido no cerne da arte brasileira”, responsável por interromper seu desenvolvimento autônomo e retirar-lhe a espontaneidade. A consequência maior disso teria o enrijecimento dos padrões estéticos brasileiros, o que teria levado, por sua vez, a uma ampla e duradoura desvalorização de praticamente todas as manifestações artísticas produzidas no país durante o período colonial, e mesmo da herança artística proveniente de Portugal, que passaram, desde então, a ser associadas ao atraso e ao mau gosto.

Fontes
- BARATA, Mário. As artes plásticas de 1808 a 1889. In: HOLLANDA, Sérgio Buarque de (org). História Geral da Civilização Brasileira - v.3. São Paulo: Difel, 1982. pp. 409-424.
- LEITE, José Roberto Teixeira. Dicionário Crítico da Pintura no Brasil. Rio de Janeiro: Artlivre, 1988. (Verbetes: Academia Imperial de Belas Artes, p.12; Missão Artística Francesa, pp.327-329).
- NAVES, Rodrigo. Debret, o neoclassicismo e a escravidão. In: ______. A Forma difícil: ensaios sobre arte brasileira. São Paulo: Ática, 1996. 285 p., il. color. pp.41-130.
- NEVES, Lúcia Maria Bastos Pereira das. A missão artística francesa. In: Rede da Memória Virtual Brasileira.
<http://bndigital.bn.br/redememoria/missfrancesa.html>
- Itaú Cultural. Verbetes: Academia Imperial de Belas Artes e Missão Artística Francesa.
<http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_ic/index.cfm?fuseaction=
marcos_texto&cd_verbete=332&lst_palavras=&cd_idioma=28555&cd_item=10>

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