ARQUITETURA NO BRASIL
Arnaldo Marques da Cunha

Professor na Casa das Artes de Laranjeiras, Rio de Janeiro (CAL). Curso de Jornalismo (incompleto), Escola de Comunicação, UFRJ. Revisor técnico e tradutor.


Oca, habitação dos indios

A arquitetura, no Brasil, foi influenciada pelas etnias que formaram o povo brasileiro e pelos diversos estilos arquitetônicos vindos do exterior. A arquitetura bandeirista e o barroco mineiro são considerados expressões de estilos europeus que encontraram, aqui, manifestação e linguagem próprias, destacando-se de suas contrapartes metropolitanas. A primeira se refere à produção realizada pelas famílias dos bandeirantes onde seria hoje o estado de São Paulo, inspirando-se numa estética próxima, ainda que bastante alterada, à do maneirismo. Já a segunda corresponde ao barroco, ainda que mais próximo do rococó, representado especialmente nas igrejas construídas por Aleijadinho.

Os primeiros exemplos significativos de arquitetura no Brasil foram as fortalezas e os templos religiosos. Nos primeiros anos da colonização, uma das preocupações da metrópole portuguesa era assegurar a posse do território, e as primeiras povoações nasceram em torno de cidadelas. As fortalezas foram erguidas, no litoral e no interior, seguindo basicamente um mesmo modelo, que se manteve ao longo dos séculos sem grandes variações: uma planta quadrangular ou poligonal, às vezes deformada para se adaptar à topografia subjacente.As primeiras ordens religiosas a se fixarem no Brasil – jesuítas, franciscanos e carmelitas – possuíam notáveis arquitetos e construtores em seus quadros e, assim, iniciou-se uma tradição de construções religiosas cada vez mais imponentes.


Forte dos Reis Magos, Natal

Os primeiros templos religiosos construídos no Brasil seguiram o estilo renascentista tardio ou maneirista português, apresentando nave e capela-mor de planta retangular (uma ou três naves), janelas simples e fachada retangular ou quadrada encimada por frontão triangular, com uma ou duas torres laterais. Durante o século XVII, apareceram frontões adornados com volutas de caráter maneirista. Hoje restam poucos exemplos da arquitetura quinhentista no Brasil, uma vez que boa parte das edificações mais antigas foi destruída ou pilhada ou reformada, até mesmo em tempos mais recentes. Exemplos raros de arquitetura religiosa quinhentista são a igreja matriz de São Cosme e São Damião de Igarassu (iniciada em 1535 e depois reformada) e a igreja da Graça em Olinda, construídas em Pernambuco no último quartel do século XVI. Várias igrejas do século XVII, de caráter maneirista, ainda sobrevivem no Brasil (como a do mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro, construída entre 1633 e 1677 e baseada num projeto de 1617).

Na arquitetura religiosa bem como na civil, a antiga técnica da taipa foi empregada desde os primeiros tempos até o século XIX, quando começou a declinar, só sobrevivendo em comunidades mais pobres. As residências rurais primitivas (em sua maioria, também de taipa) nasceram dos primeiros empreendimentos agrícolas e se resumiram a uma planta básica quadrada com um grande aposento de uso múltiplo, podendo contar com um anexo menor para a cozinha. Nas vilas litorâneas, o esquema construtivo se alterou em vista das necessidades da urbanização compacta e de melhor defesa contra ataques de índios e piratas, comuns no primeiro século de colonização, adotando-se o modelo europeu de casas construídas lado a lado, sem espaço intermediário, com terreno livre apenas nos fundos e cobertura com telhas de barro.


São Francisco, Salvador

Com o progresso da colonização e o estabelecimento de uma estrutura urbana básica, o adobe passou a ser utilizado para construção, por ser mais resistente e permitir o avanço de estruturas maiores, com reforços de madeiramento (a Casa-Forte de Garcia d'Ávila, em Pernambuco, erguida em 1551, é um bom exemplo). Mais para o fim do século, no interior do país, começaram a se formar grandes fazendas que contaram com casas senhoriais amplas – de até dois pavimentos e estrutura de madeira e adobe, ou de pau-a-pique, às vezes com cantaria e coberta de telhas, embora sua fachada continuasse a apresentar linhas simples (a inovação foi a introdução da varanda à frente da fachada: uma área coberta livre de paredes).


Ponte Hercílio Luz, Florianópolis

Durante muito tempo, as construções brasileiras foram traçadas por engenheiros, arquitetos, decoradores, escultores e mesmo ourives e simples entalhadores, desde que com capacidade para o desenho e a organização de espaços. Contudo, a construção efetiva dos prédios principais era entregue a um mestre-de-obras experiente. Com certo atraso em relação ao desenvolvimento estético europeu, o barroco chegou no Brasil a partir do século XVII (nos centros de Salvador e São Paulo), disseminou-se para o resto do país (do Pará ao extremo-sul) e até em Goiás e Mato Grosso, criando um extenso acervo de arte e arquitetura de alta qualidade e típico de todo o período colonial, levando certos autores a nomeá-lo "a alma do Brasil".

Sua influência se estendeu até o século XIX, como se constata nas edificações perfeitamente barrocas de igrejas (constitui exemplo tardio a igreja da Candelária, no Rio de Janeiro, concluída em 1877, com base em projeto do século anterior). Este estilo, cujos maiores expoentes são edifícios religiosos, com o tempo passou de uma arquitetura sólida e austera derivada da herança quinhentista (com frontões discretos, torres com coroamento piramidal simples e frontispícios pouco elaborados) até chegar a uma fase onde as fachadas e interiores recebem ornamentação com riqueza e requinte de detalhes.


Construção do Cristo Redentor, Rio de Janeiro

Na arquitetura civil, o barroco deixou relativamente poucos edifícios. As residências se caracterizaram por apresentarem fachadas de um ou dois pavimentos, com aberturas simples em arco abatido ou retangulares, emolduradas em madeira (mais raramente em pedra) e um telhado igualmente simples com beiral (às vezes com alguma ornamentação discreta: uma suave curvatura e telhas em bico nos cantos), além de sacadas com gradis de ferro trabalhado. Famílias ricas construíram solares amplos e ornamentados, com azulejos na fachada, arcadas e estatuária decorativa. Também nas fazendas do interior sobreviveram casarões senhoriais de grande interesse, alguns de grandes dimensões.

Caso singular num gênero diverso é o aqueduto da Carioca, uma obra civil para condução de água erguida entre os séculos XVII e XVIII (no Rio de Janeiro, com 270 metros de extensão e 17 metros de altura). Dos prédios oficiais, poucos sobreviveram sem alterações: a antiga Casa da Câmara e Cadeia de Ouro Preto (atual Museu da Inconfidência) e o Paço Imperial no Rio, antiga residência da família real. Salvador, Olinda, São Luís, Goiás Velho e cidades em Minas Gerais (notadamente Ouro Preto e Diamantina) ainda preservam numerosos exemplares de arquitetura civil e religiosa típicas do barroco colonial em seus centros históricos (declarados patrimônio mundial  pela Unesco, por sua importância histórica e arquitetônica).


Maracanã, Rio de Janeiro

Em fins do século XVIII, com a gradual introdução do neoclassicismo no Brasil e, em especial, a partir da presença do arquiteto francês Grandjean de Montigny já no início do século XIX, este novo estilo levou ao surgimento de uma escola eclética e produziu importantes edifícios públicos do país, exercendo larga influência em todos os estratos sociais. O neoclassicismo foi oficialmente introduzido no Brasil pela Missão Francesa de 1816, embora elementos neoclássicos já estejam presentes nas obras arquitetônicas do Mestre Valentim, no Rio de Janeiro. A Missão desempenhou um papel crucial na difusão dos ideais neoclássicos a partir da capital, incentivada pela necessidade de se reorganizar a planta urbana do Rio após a chegada da família real portuguesa. A Escola Real de Ciências, Artes e Ofícios (fundada sob influência dos franceses) incluía um curso completo de arquitetura efetivamente ministrado por Grandjean de Montigny em 1826, a  Aula de Arquitetura Civil, que, após a Aula de Fortificações (em Salvador) e a Real Academia de Artilharia, Fortificação e Desenho (no Rio de Janeiro), constituiu a terceira escola regular de ensino arquitetônico fundada no Brasil.

Mesmo com esta função de divisor de águas na história da arquitetura brasileira, a herança da Missão Francesa deixou de influir na técnica e na estética das construções desta primeira metade do século XIX, sobretudo em locais afastados da corte carioca. O barroco colonial gradualmente se extinguiu e a corrente neoclássica ganhou predominância, com um centro difusor principal – o Rio de Janeiro (o estilo oficial sendo uma importação na íntegra de referenciais estrangeiros, incluindo os materiais de construção e os artífices) – para o interior do país, onde as circunstâncias geográficas, sociais e econômicas obrigaram à criação de um estilo simplificado, provinciano e superficial. O neoclassicismo deixou diversos exemplos significativos em vários pontos do Brasil: Palácio Real da Quinta da Boa Vista e Santa Casa de Misericórdia (Rio); Teatro de Santa Isabel (Recife); Museu Imperial (Petrópolis); Teatro da Paz (Belém), e Palácio dos Leões (São Luís). Ainda com um perfil neoclássico, embora já apontando para o ecletismo que se seguiu, surgiu o Museu do Ipiranga (São Paulo).


Lina Bo Bardi, Masp, São Paulo

Em meados do século XIX se formou um corpo de crítica da arquitetura, cujos primeiros expoentes foram José Albano Cordeiro e Moreira de Azevedo e as obras teóricas de Johann Joachim Winckelmann, Marc-Antoine Laugier, Quatremère de Quincy, Jean-Nicolas-Louis Durand, Vignola e Palladio – ocasião em que surgiram os primeiros tratados autóctones: Compêndio de Architectura Civil e Hydraulica (1844), de Pedro de Alcântara Bellegarde, e Vocabulario dos Termos Technicos da Arte de Construir” (1868-69), de André Rebouças. Arquitetos como Joaquim Cândido Guilhobel, Jacintho Rebello e Joaquim Francisco Béthencourt da Silva divulgaram esta nova ordem que, abandonando o idealismo e tendo por escopo a necessidade e a funcionalidade, logo constituiu um conjunto verdadeiramente eclético de elementos arquiteturais que buscaram novas soluções na volumetria, na distribuição de espaços internos, no vocabulário ornamental e na técnica construtiva.

Com o advento da República (1889) e dos novos sentimentos nacionalistas, o ecletismo passou a ser empregado como ilustração de um ideário político que negou a ligação com o passado português, fazendo referências a outras fontes de cultura (França e Itália). Ao mesmo tempo, surgiram inovações tecnológicas nos meios de transporte (expansão das ferrovias e aparecimento do bonde elétrico e, logo após, do automóvel), na indústria (produção em série), nos métodos de construção (uso estrutural do ferro fundido, aço e concreto) e no sistema de produção (com o emprego de mão de obra assalariada, cujo grande contingente era imigrante). Esses fatores, associados à acelerada urbanização na virada do século XIX para o século XX, levaram a uma rápida expansão e desenvolvimento nas artes arquiteturais.

Já no século XX, além da base neoclássica, o ecletismo incorpora elementos de historicismo e exotismo, evidenciando traços neobarrocos, mouriscos, românicos e de outras escolas e países. Nas primeiras décadas do século XX o ecletismo chega ao auge, com a proliferação de grandes construções públicas e privadas em todo o país, incluindo palácios de governo, teatros, colégios. Estende sua área de influência desde as elites, em seus palacetes, até as camadas mais baixas da população, que ergueram suas residências num estilo eclético simplificado. Enquanto o Estado se afirmava internacionalmente, junto às grandes potências capitalistas, edificando em larga escala em conformidade com os princípios mais "modernos", a burguesia abastada e em rápida ascensão colaborava na multiplicação de edificações suntuosas e monumentais, com interiores luxuosos e fachadas carregadas de ornamentos e estatuária, a fim de assegurar física e visualmente seu status, igualmente expandindo o mercado construtor e o sistema de produção por ela própria administrado.Pode-se elencar, entre os arquitetos notáveis da época, os seguintes profissionais: Filinto Santoro (atuante em várias partes do Brasil), Ramos de Azevedo e Domiziano Rossi (São Paulo), Heitor de Melo (Rio) e Theodor Wiederspahn (Porto Alegre), todos com obra extensa de qualidade e inventividade.


D. Bongestabs, Ópera de Arame, Curitiba

A art nouveau, um estilo internacional de arte e arquitetura, foi a expressão típica da modernidade, reagindo ao historicismo e ao sentimentalismo românticos, objetivando uma integração à vida cotidiana, às mudanças sociais e ao ritmo acelerado da vida moderna, apesar de se opor à lógica industrial e à sociedade de massas pela ênfase na beleza e no artesanato, e pela subversão de certos princípios da produção industrial em série, que tendia ao uso de materiais mais descartáveis e ao acabamento menos sofisticado. Já a art déco aparece no contexto da industrialização e expansão urbana aceleradas, com suas linhas sintéticas e ornamentação geometrizante, o que representou um passo importante para o desenvolvimento da arquitetura modernista. Os seus princípios agiram como enxugamento formal de caráter progressista na atmosfera estética já um tanto opressiva, confusa e nostálgica dos anos anteriores, e se prestou mais, pela maior simplicidade e coerência entre forma e função, ao processo de verticalização das grandes cidades.

Posteriormente, o modernismo definiu mudanças drásticas, num processo coroado pela construção da nova capital federal, Brasília. Com a necessidade de uma renovação definitiva no panorama arquitetônico nacional, visando à homogeneização da paisagem urbana, em meados da década de 1920 formou-se um grupo de profissionais em torno da figura do russo Gregori Warchavchik, cujo projeto inicial foi o da Casa Modernista (São Paulo). Este grupo de arquitetos colocou o Brasil entre os principais expoentes internacionais da indústria da construção civil, inspirados pela arquitetura de Le Corbusier, Walter Gropius, Mies Van der Rohe e Frank Lloyd Wright, e estava ligado a movimentos estéticos como o futurismo e o modernismo brasileiro das artes plásticas e da literatura. Participaram deste período revolucionário, entre outros, Affonso Eduardo Reidy, Carlos Leão, Ernani Vasconcelos, Jorge Moreira, Lucio Costa e sobretudo Oscar Niemeyer, cuja produção, ao longo de uma extensa carreira, o coloca como um dos gênios da arquitetura universal.

A visita de Le Corbusier ao Brasil (1929) e sua posterior contratação pelo governo brasileiro (1936) para dar assessoria ao projeto do Ministério da Educação e Saúde no Rio colocaram o modernismo em evidência tornando-o uma espécie de estilo oficial, cujo coroamento foi a construção de Brasília na segunda metade da década de 1950. O modernismo trouxe avanços radicais à estética e à técnica de construção, onde predominaram ousadas linhas geométricas simples e puras (com o concreto armado, o aço e o vidro assumindo papel de destaque). Vários arquitetos brasileiros seguiram os princípios de Le Corbusier, com uma contribuição significativa no cenário nacional: Henrique Mindlin, Carmen Portinho, Francisco Bolonha, Sérgio Bernardes, Olavo Redig de Campos e Marcos Konder Netto (Rio); Flávio de Carvalho, Álvaro Vital Brazil, Rino Levi, Oswaldo Bratke, Paulo Mendes da Rocha e Vilanova Artigas (São Paulo); Luís Nunes, Burle Marx e Delfim Amorim (Recife); Diógenes Rebouças e José Bina Fonyat (Salvador).


Oscar Niemeyer, Congresso Nacional

Na década de 1960, diferenças e necessidades regionais se fizeram presentes e materiais tipicamente regionais foram usados nas construções (cerâmica e tijolo aparente). A unidade de pensamento arquitetônico em torno de Corbusier se quebrou e surgiram adaptações e releituras do repertório formal modernista. A partir da década de 1970, tornaram-se patentes sérios problemas de urbanismo ligados à crescente densidade populacional nas grandes cidades e à sua intensa verticalização. Em anos mais recentes, há grande demanda por habitação popular e muita especulação imobiliária, acarretando uma série de problemas associados: embora sejam questões diretamente ligadas ao urbanismo, atualmente a arquitetura desempenha um papel decisivo neste processo, e as projeções da ONU de que, em 2030, 60% da população mundial viverá em cidades, já forçaram uma reavaliação na tipologia das construções e em sua adequação às realidades locais, visando a alcançar sustentabilidade na futura urbanização. Desde o modernismo, a arquitetura brasileira ganhou trajetória própria e, respeitada internacionalmente, busca definir algo que se possa classificar como nacional num mundo, agora, globalizado.

A ascensão e firme implantação do modernismo na arquitetura nacional acarretou, em contrapartida, uma verdadeira condenação do estilo eclético. Em meados do século XX, sob a influência dos seguidores do modernismo, o ecletismo passaria a ser considerado uma aberração, levando à demolição de vários prédios importantes (como o Palácio Monroe, no Rio). Só a partir dos anos 1980 o ecletismo passou a ser revalorizado como uma expressão legítima de determinada fase da história arquitetônica brasileira e, por isso, merecedor de atenção, respeito e proteção.

Fontes
Wikipedia. Arquitetura do Brasil.
PAIVA, Ricardo. Arquitetura e cidade no Brasil: séculos XVII e XVIII (texto veiculado em 02/06/2009).

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