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MONTE CARMELO, Padre Jesuíno do
Pintor, escultor, arquiteto, entalhador, dourador, encarnador, meste em torêutica (trabalhos de cinzelagem e entalhe em metais e madeira), poeta, compositor, padre carmelita.
Jesuíno Francisco de Paula Gusmão. (1764: Santos, SP – 1819: Itu, SP).

Apesar de sua limitações técnicas e sua visão ingênua, o barroco de Jesuíno tem um encanto simples, e que lhe é próprio. Como músico, construiu um órgão para o Convento do Carmo de Santos, SP e compôs diversas peças sacras. “(...) Singular vida a desse mulato de Santos! Sobrinho-bisneto, pelo lado materno, de AlexandreAlexandre e Bartolomeu de GusmãoBartolomeu de Gusmão , com dons artísticos pouco comuns, pintor e arquiteto, casou-se em Itu, teve cinco filhos, e, enviuvando, fez-se padre. Antes e depois de ordenar-se, pintou várias igrejas da vila, traçou o plano e construiu quase até o fim a de Nossa Senhora do Patrocínio. Além disso, compôs músicas sacras. Mais do que tudo, porém, tinha aquela bondade contagiosa que tão fundo tocou o temperamento algo ríspido de Feijó e soube atrair tantas outras almas inquietas e enfaradas do quotidiano.” (Octávio Tarquínio de Sousa, História dos Fundadores do Império do Brasil, vol. VII).

Jesuíno era mulato, filho e neto de escrava. Sua mãe, Domingas Inácia de Gusmão, era sobrinha-neta de dois brasileiros ilustres: o padre jesuíta Bartolomeu Lourenço de Gusmão, conhecido como o “Padre Voador”, que inventou um mal-sucedido aeróstato, a “Passarola”, que não conseguiu voar (Lisboa, 1709); o outro, seu irmão Alexandre de Gusmão, inspirador da diplomacia brasileira, “pai” da ideia do Tratado de Madri e patrono da Fundação do mesmo nome.
Por parte do pai, Antônio Gueraldo Jácome, Jesuíno era descendente da família Godói. Casou-se com Maria Francisca, branca de ascendência portuguesaportuguesa . Dois de seus filhos foram padres: Elias do Monte CarmeloElias do Monte Carmelo e Simão Stock do Monte CarmeloSimão Stock do Monte Carmelo , que fizeram parte da congregação do Patrocínio.
1778 – Realizou, por encomenda, trabalhos para o Convento do Carmo, em Santos, SP: decorou as roupagens e encarnou (quer dizer, pintou as imagens, imitando a cor da pele) três esculturas, representando San’Ana, NS da Conceição e São Joaquim.
1781 – Foi residir em Itu, São Paulo. Ainda como leigo, escolheu viver com religiosos. Tornou-se discípulo e ajudante do pintor José Patrício da Silva MansoJosé Patrício da Silva Manso , que então decorava a Igreja Matriz de NS da Candelária, com pinturas no teto e douramentos nos altares.
1784 – Jesuíno executou para este templo 12 quadros com motivos religiosos, para decorar a capela-mor.
1784 – 94 – Em Itu, ao longo de dez anos, realizou a decoração do forro da Igreja de NS do Carmo.
1794 – Para a Igreja de Santa Teresa, do Mosteiro da Luz, São Paulo, das freiras carmelitas, Jesuíno executou dez painéis. Mudou-se para esta cidade no ano seguinte, e começou as decorações no forro da Igreja da Ordem Terceira do Carmo, além de pintar para o mesmo templo 18 painéis a óleo sobre madeira.
1797 – Foi ordenado padre carmelita, rezando sua primeira missa no ano seguinte. Jesuíno acalentou, por muitos anos, o sonho de erguer em Itu uma Igreja de Nossa Senhora do Patrocínio. Em 1808 foi a Goiás procurar verbas para realizar este projeto, o qual em 1812 ainda não estava concluído, tanto que só neste ano conseguiu dinheiro em sua viagem ao Rio de Janeiro, quando D. João VI lhe doou 3.000 cruzados. O fervor de Jesuíno pelo projeto de Nossa Senhora do Patrocínio o engajou completamente, tendo nela trabalhado como arquiteto e mestre de obras. Na verdade, não se tratava só de construir um templo, mas de constituir uma irmandade.
1818 - o seu amigo e admirador padre Diogo Antonio Feijó, mudou-se para Itu e foi residir com Jesuíno. Os “padres do Patrocínio”, como eram chamados, não constituíam uma ordem ou congregação religiosa, autorizada ou organizada pela Igreja. Eram um grupo de seculares que mantinham reuniões para estudar a doutrina cristã, trocar experiências e se aperfeiçoar espiritualmente, orando e mantendo sua vida em conformidade com a pureza de costumes. O Padre Feijó passou a ser um membro fervoroso da confraria. Entretanto, Jesuíno pintou para essa igreja oito quadros, representando santos carmelitas.

Um ano depois da morte do artista, Nossa Senhora do Patrocínio foi, finalmente, inaugurada em 1820, numa solenidade em que foram tocadas peças de Jesuíno, como Procissão de Palmas e O Salutaris hóstia.
1821 - os seus despojos foram transladados para este templo, numa cerimônia que incluiu uma oração fúnebre, proferida pelo Padre Feijó, que assim elogiou Jesuíno: “(...) Na verdade, senhores, um não sei quê tinha aquele semblante de amável e lisonjeiro que atraía, cativava e docemente arrebatava os que o ouviam. Eu mesmo à primeira vista senti os encantos deste encanto; eu não me fartava de vê-lo, de ouvi-lo, de estar em sua companhia; eu contava por uma felicidade ter parte em seu coração: este fenômeno raro não foi encontro de amor ou inclinação, foi uma necessidade de admirar, de amar a inocência e a virtude.” (Oração fúnebre feita pelo Padre Diogo Antônio FeijóDiogo Antônio Feijó no segundo aniversário da morte do Padre Jesuíno do Monte Carmelo, Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, tomo 25, pg. 80).
1894 – A Igreja de NS do Patrocínio passou por um grande reforma, tendo a fachada inteiramente modificada. A primitiva torre, pesada, foi substituída por duas, mais altas e elegantes.
1949 - A pintura interna foi completamente renovada.
1945 - Publicado pelo Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional o livro Padre Jesuíno do Monte Carmelo, de Mário de AndradeMário de Andrade .

Nos anos de 1960, o prof. Regis Duprat encontrou as peças musicais de Jesuíno no arquivo do Maneco Músico, em Campinas, SP


Fontes
ANDRADE, Mário de. Padre Jesuíno do Monte Carmelo. Editora Martins, São Paulo, 1963.
ARAÚJO, Emanoel. A mão afro-brasileira: significado da contribuição artística e histórica. Tenenge. São Paulo, 1988.
ARTE no Brasil. Textos de Pietro Maria Bardi et al. Abril Cultural. São Paulo, 1979.
BRAGA, Theodoro. Artistas pintores no Brasil. São Paulo Editora, 1942.
LEITE, José Roberto Teixeira. Dicionário Crítico da Pintura no Brasil. p. 332. Artlivre, Rio de Janeiro, 1988.
PONTUAL, Roberto. Dicionário das artes plásticas no Brasil. Civilização Brasileira. Rio de Janeiro, 1969.
REIS JÚNIOR, José Maria dos. História da pintura no Brasil. Leia, São Paulo, 1944.
ZANINI, Walter. História Geral da Arte no Brasil. Instituto Moreira Salles, Fundação Djalma Guimarães, São Paulo, 1983.
< http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_ic/index.cfm?fuseaction=artistas_
biografia&cd_verbete=1851&cd_idioma=28555&cd_item=1>
<http://www.pt.wikipedia.org/wiki/Jesuíno_do_Monte_Carmelo >

 

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